Conto - O clubinho das meninas


O clubinho já estava quase perfeito. Já tinham o esconderijo secreto (segunda porta do guarda-roupa, começando pelo lado perto da janela), um hino (que enaltecia as qualidades do brigadeiro) e uma senha (duas pancadinhas com a mão, um estalo com a língua, uma batidinha com o pé). Faltava apenas eleger a Presidente Rainha Mestra Suprema do clube, mas estava mais complicado do que parecia: cada uma das três meninas insistia em votar em si mesmas para o cargo. As duas mais velhas bem que tentaram convencer a pequena a votar em uma delas, mas ela queria ser a Presidente Rainha Mestra Suprema tanto quanto as outras duas. No fim, decidiram que o cargo seria resolvido com uma competição em que só a mais inteligente, habilidosa e sagaz (elas não faziam a menor ideia do que significava ser sagaz, mas acharam a palavra legal) seria capaz de superar: acertar uma pedrinha dentro da chaminé da churrasqueira do quintal, que ficava a alguns metros da janela do quarto delas.

A primeira a tentar foi a pequena, com uma pedrinha tão minúscula quanto ela. E errou tão feio que começou a chorar, só parando quando as outras duas meninas garantiram a ela que seria para sempre a vice-vice-presidente-rainha-mestra-suprema do clube.

A segunda a tentar quase acertou. Usou um pedaço de uma telha que caiu na borda da chaminé e ficou por lá mesmo. A menina soprou furiosamente por alguns minutos até perceber que isso não faria a telha se mover.

A terceira, sempre exagerada, resolveu usar um pedaço de tijolo. Um grande cargo merecia uma grande pedra. Fez cálculos, moveu os bracinhos para frente e para trás e finalmente lançou o tijolinho com toda a vontade, só esperando ouvir o som do objeto caindo dentro da chaminé.

Mas foi um cráááááá e um ploft que as três meninas ouviram, e de repente lá no meio do quintal estava uma ave caída, imóvel. Morta?

As três se aproximaram do corpinho emplumado, devagar, como se estivessem com medo de chegar muito perto. A menininha da telha começou a chorar diante da tragédia, seguida pela dona do tijolo-arma-do-crime. Mas a pequena, muito calma, pegou um graveto (o mais comprido que achou) e cutucou a ave.

Nada.

Cutucou de novo.

Nada.

Baixou o graveto solenemente, pronta para anunciar, "morreu mesmo", quando CRÁÁÁÁÁÁÁ!!!!!!!!!!! e as três meninas correram para dentro de casa completamente aterrorizadas, esquecidas da competição, do clube e do hino que enaltecia as qualidades do brigadeiro.

A ave, que só havia se aproximado para limpar suas lindas penas na terra perto da churrasqueira, levantou um vôo meio torto, parando na borda da chaminé da churrasqueira para tomar um fôlego. Só que ela havia pousado bem em cima do pedaço de telha, e quando se preparava para voar de novo, escorregou e despencou dentro da chaminé. Definitivamente aquele não havia sido um bom dia para a pobre ave. Ainda por cima, tinha uma pedrinha presa entre as garrinhas, que a ave conseguiu soltar após algumas bicadas.

Por fim, levantou vôo e foi embora sem saber que a pedrinha pertencia à menininha pequena e sem querer, a havia feito ganhar a competição, fazendo dela a Presidente Rainha Mestra Suprema do clubinho das meninas.

Nenhum comentário

Tecnologia do Blogger.